A Identidade de Santa Cruz no Horizonte do Cristianismo (1/4)

Com presença em 19 países, a Congregação de Santa Cruz une fé e educação para formar pessoas integralmente e transformar realidades, mantendo viva uma missão iniciada no século XIX e enraizada também no Brasil

A Igreja: um esclarecimento sobre seu significado

A compreensão da missão e do carisma da Congregação de Santa Cruz exige, antes de tudo, um retorno às suas raízes mais profundas: o mistério da Igreja, a centralidade de Jesus Cristo e o compromisso do batismo. Esses elementos não são apenas pressupostos teóricos, mas constituem o horizonte vital a partir do qual se compreendem tanto a educação católica quanto o próprio carisma da Congregação de Santa Cruz. Ainda que os três elementos devam ser considerados em sua unidade, o presente texto se concentrará em explicitar, de modo particular, a identidade da Igreja, deixando para as próximas edições o desenvolvimento dos demais elementos.

A Congregação de Santa Cruz pertence à Igreja Católica. Essa afirmação, embora aparentemente óbvia, encobre uma complexidade histórica e interpretativa que não pode ser ignorada. Ao longo dos séculos, a Igreja foi interpretada sob múltiplas lentes — algumas idealizadoras, outras críticas. Em determinados contextos, ela foi compreendida como instrumento de poder ou como expressão ideológica de uma superestrutura da classe dominante. Em outros, ela foi exaltada como a realização histórica máxima de um projeto político-social totalizante. Ambos os olhares desconsideram seu significado genuíno, deformando-o em uma caricatura insólita. Para recuperar sua compreensão essencial, é útil retornar à origem do próprio termo “Igreja”.

Proveniente do grego κκλησία, o termo igreja (ecclesia) designava a assembleia de cidadãos reunidos para deliberar sobre a vida da pólis. Ao ser apropriado pelo cristianismo nascente, esse conceito ganhou um novo sentido: passou a indicar não, primeiramente, uma instituição, mas uma comunidade de pessoas reunidas em torno da fé. Trata-se, portanto, de uma realidade constituída pela união de pessoas, e não, primariamente, pela organização de estruturas.

Na tradição apostólica, essa compreensão recebeu uma formulação decisiva. São Paulo recorreu à imagem do corpo para descrever a unidade na diversidade daqueles que foram chamados por Cristo. É a partir dessa metáfora que se ilumina a natureza da Igreja como comunhão viva, orgânica e interdependente de pessoas. Como escreve o apóstolo:

“Como o corpo, sendo um, tem muitos membros, e os membros, sendo muitos, formam um só corpo, assim é Cristo. Todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num só Espírito para formarmos um só corpo, e absorvermos um só Espírito. O corpo não consta de um membro, mas de muitos (…). Vós sois corpo de Cristo e membros singulares seus.”   

(I Cor 12, 12-14; 27)

A intuição paulina é clara: a realidade da Igreja é a unidade dos indivíduos associados a Cristo. Esta concepção foi amplamente desenvolvida pela tradição patrística. São João Crisóstomo, por exemplo, ao comentar o referido trecho, afirma que o Apóstolo chega a chamar “Cristo” ao corpo inteiro, evidenciando a união íntima e inseparável entre a cabeça e os membros. “Assim como, diz ele, nosso corpo é uma só coisa, embora seja composto de muitos membros, assim também na Igreja todos nós somos uma só coisa. Porque, embora a Igreja seja composta de muitos membros, contudo estes muitos formam um só corpo” (São João Crisóstomo. Homilias sobre a Primeira Carta aos Coríntios. Homilia 30).

Assim, a Igreja se define essencialmente como um corpo vivo, formado por homens e mulheres que, ao longo da história, se congregam em torno de uma pessoa — Jesus Cristo — e de sua proposta de vida. “É nesse corpo que a vida de Cristo se difunde nos que creem” (Lumen Gentium, 7).  Ela não se limita à sua dimensão institucional, ainda que a inclua; sua identidade mais profunda é relacional, histórica, dinâmica e mística. Pertencer à Igreja, portanto, não significa apenas integrar uma estrutura organizativa, mas participar de um movimento humano e espiritual que atravessa os séculos, enraizado em uma experiência: o encontro fundante com Cristo.


Murilo Daniel Botelho Gomes

Diretor de Frente de Missão

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