Jesus Cristo: história e testemunho
No texto anterior, vimos que a Igreja nasce de um encontro. Antes de ser instituição, ela foi um pequeno grupo de homens e mulheres que cruzaram o caminho de Jesus de Nazaré. Nesta nova seção de formação, vamos explorar o mistério em torno da pessoa de Jesus e entender melhor quem foi ele. Mais do que fundador do cristianismo, Cristo é o próprio conteúdo da fé.
Poucas figuras da história são tão conhecidas, e talvez nenhuma seja tão mal compreendida. Ao longo dos séculos, Jesus foi apresentado como mestre de moral, sábio entre outros sábios, revolucionário político ou taumaturgo de poderes extraordinários. Cada uma dessas leituras parte de um fragmento de verdade, mas nenhuma a alcança por inteiro. Todas bebem da mesma fonte: o testemunho dos Evangelhos. É para ela que convém olhar.
Três desses quatro livros registram que, já em seu tempo, as opiniões sobre Jesus eram diversas. Uns o tomavam por um novo profeta; outros o aproximavam das grandes figuras da história de Israel. Como hoje, cada um o compreendia a partir do que já conhecia. Seus discípulos foram além e reconheceram nele o “Cristo” — uma expressão familiar, mas nem sempre bem compreendida. Muitos a tomam por um sobrenome quando, na verdade, ela é um título.
A palavra “Cristo” vem do grego Χριστός (Christós), tradução do hebraico ח ָמִׁשי (mashiach), de onde vem também “Messias”. Os três termos dizem o mesmo: “ungido”. Em Israel, a unção com óleo era um gesto sagrado: designava alguém escolhido por Deus para uma missão. Assim foram consagrados reis, como Saul e Davi, e sacerdotes, como Aarão. Com o tempo, o povo passou a esperar um Messias, um ungido definitivo, descendente de Davi, que restauraria o reino de Israel. No tempo de Jesus, sob a dominação romana, essa esperança era intensa e tinha contornos políticos: aguardava-se um rei libertador. Reconhecer Jesus como o Cristo era ver nele o cumprimento dessa promessa. Mas ele a assumiu por um caminho que ninguém esperava.
Sua jornada começou longe de Jerusalém, na Galileia, uma região à margem do mundo judaico de seu tempo. Ali, Jesus viveu como rabi, isto é, mestre itinerante: chamou pescadores junto às suas redes e reuniu discípulos ao seu redor, em sua maioria homens simples, trabalhadores e pouco letrados. Ele ensinava o Evangelho — do grego εὐαγγέλιον (euangélion), “boa notícia” — e confirmava suas palavras com gestos. Muitos desses gestos ecoavam antigas profecias: cegos que voltavam a ver, coxos que voltavam a andar, enfermos que eram curados. Para quem os presenciava, eram sinais de que o tempo messiânico havia chegado e de que Roma, enfim, seria vencida. Ainda assim, Jesus não correspondia ao que se esperava do Ungido.
Em vez de manter distância dos que a religião e a sociedade excluíam, ele ia ao seu encontro. Chamou Mateus, cobrador de impostos visto como colaborador dos
dominadores, e hospedou-se na casa de Zaqueu, chefe dos publicanos. Tocou um leproso, que a lei mandava manter afastado, e curou outros dez. Junto a um poço, conversou com uma samaritana excluída por três motivos: por ser mulher, por ser samaritana e por sua história de vida — em uma época em que só o marido podia desfazer o casamento, ela tivera cinco maridos e vivia com um homem que não era seu marido. Aos olhos dos mais ortodoxos, aquele mestre se aproximava de quem não devia.
Seu olhar também se detinha, preferencialmente, nos mais frágeis, aqueles a quem a Lei e os Profetas pediam cuidado especial. Em Naim, comoveu-se com uma viúva que acabava de perder o único filho e, com ele, todo o amparo. Tocou o caixão do rapaz — gesto que a lei associava à impureza. No templo, enquanto os ricos depositavam grandes ofertas, elogiou a viúva pobre que dera tudo o que tinha. À beira do caminho, parou diante de Bartimeu, o cego que mendigava e a quem muitos mandavam calar. Nem o sábado, dia sagrado do descanso, o impedia de cuidar de um doente. Enquanto seu olhar buscava os frágeis, outros olhares o vigiavam. Diante deles, perguntou se era permitido, nesse dia, salvar uma vida ou deixá-la perder-se. Ninguém respondeu.
Era um silêncio carregado de indignação, ressentimento e medo. Por outro lado, a paixão com que Jesus ensinava e agia arrebatava os corações: multidões deixavam suas aldeias para ouvi-lo, e muitos largavam tudo para segui-lo. O mesmo ardor que atraía os pequenos inquietava os poderosos. Diante de Jesus, ninguém permanecia indiferente. Quando expulsou os vendedores do templo, seus discípulos se lembraram de um salmo antigo: “O zelo por tua casa me consumirá”. As autoridades passaram a temê-lo, justamente porque o povo se encantava com seu ensino. Sua crítica à hipocrisia e o modo como falava de Deus, a quem chamava de Pai, foram recebidos como afronta. Ele havia se tornado um problema insolúvel, e eliminá-lo parecia a saída mais conveniente.
O que veio depois é história: Jesus foi traído, torturado e crucificado. Contudo, nesse processo, há um instante decisivo e menos conhecido. Diante do tribunal religioso de Jerusalém, o sumo sacerdote perguntou-lhe se era o Messias, o Filho de Deus. Jesus respondeu: “Eu sou”. Para seus juízes, era blasfêmia: um homem se fazia igual a Deus. Diante de Pilatos, a acusação ganhou outro contorno: quem se dizia rei desafiava o poder de César. A pena para isso era a cruz, morte que Roma reservava a escravos e inimigos do Estado. Sobre sua cabeça, uma inscrição trazia a sentença: “O Rei dos Judeus”. Foi despido diante da multidão, sujeito a zombarias e cusparadas, contado entre malfeitores.
Nessa desonra, porém, acontece uma inversão radical. Despojado de tudo, Jesus se entrega por inteiro. Escarnecido, pede ao Pai perdão para seus algozes. Crucificado ao lado de um criminoso, promete-lhe o paraíso. Seus braços, estendidos no madeiro, guardam o paradoxo que inspirou um poeta baiano a cantar: estão abertos para nos receber e cravados para não nos castigar. O que era sinal de derrota torna-se sinal do amor levado até o fim. Por isso, em Santa Cruz, repetimos nosso lema: Ave Crux, Spes Unica — Salve, ó Cruz, nossa única esperança.
Naquela tarde, ninguém podia ver isso. Para os discípulos, tudo parecia terminado. A maioria fugiu, e com o mestre crucificado morria também a esperança do Messias poderoso que libertaria Israel pela força. Junto à cruz, restaram poucos: algumas mulheres,
o discípulo mais jovem e Maria, mãe de Jesus, que permanecia de pé. Mais tarde, depois de tudo estar consumado, dois homens que até então se aproximavam dele em segredo, José de Arimateia e Nicodemos, perderam o medo de se expor: José pediu o corpo a Pilatos, e os dois garantiram a Jesus um sepultamento digno. As trevas e o silêncio pareciam ser o ponto final de sua história.
No terceiro dia, ao nascer do sol, algumas daquelas mulheres foram até seu túmulo para ungir o corpo com perfumes. Queriam prestar uma última homenagem ao mestre. Encontraram o túmulo vazio e ouviram que não deviam procurar entre os mortos aquele que estava vivo. Correram para contar aos apóstolos. Seu testemunho, no entanto, valia pouco: naquele tempo, a palavra de uma mulher nem sequer era aceita nos tribunais judaicos. Os próprios apóstolos, a princípio, tomaram o relato por delírio. Ainda assim, foi a elas que Deus confiou a notícia decisiva. Mais uma vez, a lógica do poder se invertia.
Por séculos, Israel esperara um Messias que vencesse seus inimigos pela força. No túmulo vazio, o Ungido vencia o adversário que nenhum exército jamais derrotaria: a morte, o maior e mais temido inimigo da condição humana. Paulo, que antes perseguia os seguidores de Jesus, chegaria a desafiá-la: “Ó morte, onde está a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?” (1Cor 15,55). Sem a ressurreição, não haveria cristianismo. Sem ela, tampouco se explica a transformação dos apóstolos: homens que haviam fugido com pavor passaram a anunciar Jesus abertamente e enfrentaram por isso perseguições e mortes violentas. É desse anúncio que nasce a Igreja.
Assim, o rabi da Galileia, condenado como blasfemo e como inimigo do Estado, é reconhecido pela fé como o Cristo vivo, o Filho de Deus que venceu a morte. Nele, a Igreja tem sua origem e seu centro, e toda educação que se diz católica, sua medida. O Concílio Vaticano II expressa isso com precisão: “o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente” (Gaudium et Spes, 22). Educar corações e mentes, portanto, é conduzir cada pessoa ao encontro daquele que lhe revela quem ela é.

Murilo Daniel Botelho Gomes
Diretor de Frente de Missão

