Coordenação Geral de Serviço Social promove Webnar sobre a missão de Santa Cruz

Evento, em sua 5ª. Edição, incentiva reflexão sobre a Missão de Santa Cruz no Brasil

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Em 26 de outubro, Lilian A. Bughi, coordenadora geral de Serviço Social da Mantenedora da Congregação de Santa Cruz, promoveu a 5ª. Webnar do grupo de assistentes sociais das unidades educacionais e sociais mantidas pela Congregação, abordando o importante tema “A missão e o carisma dos Assistentes Sociais de Santa Cruz”. Aproveitando o mês dedicado às Missões, a reflexão favoreceu a articulação das dimensões teórico metodológicas, ético-política e técnico-operativa do Serviço Social como profissão, dando destaque à Missão e ao Carisma da instituição.

Os eventos têm como proposta discutir temáticas, em que o fazer educativo se concretiza nas interfaces entre a Educação, o Serviço Social e as ações Pastorais. Foram conduzidos por talentos profissionais destacados entre os colaboradores da CSC. Na sua 5ª. Edição, a temática discutida relacionou a Missão em sua essência e o papel dos assistentes sociais nas unidades da Congregação.

Convidado, o Irmão Ronaldo A. Almeida, Presidente da organização e Superior do distrito Brasil da Congregação de Santa Cruz, não apenas se fez presente, mas deixou uma significativa homenagem ao grupo:  “Foi um importante momento para ouvir sobre a missão e o carisma dos Assistentes Sociais de Santa Cruz, bem como para escutar os vários relatos que as motivaram a cursar Serviço Social, destacando o desejo de ajudar ao próximo, de fazer a diferença na sociedade”. Irmão Ronaldo, a seguir, compartilhou trecho da Constituição da Congregação de Santa Cruz, que esclarece: “A missão não é simples, pois os tipos de pobreza que teremos de aliviar não são simples. Há uma cadeia de privilégios, de preconceitos e poderes tão generalizados na sociedade que muitas vezes nem os opressores nem as vítimas têm consciência deles…. O nosso zelo pela dignidade de todos os homens, filhos queridos de Deus, nos leva a ocupar-nos com as vítimas de todo tipo de sofrimento: preconceito, fome, guerra, ignorância, infidelidade, vício e calamidade natural. ”

À luz dessa valorosa reflexão, Lilian incentivou o grupo a perseverar em sua opção missionária, em favor de tantos desprivilegiados que vivem este difícil momento da história do país, agradecendo a partilha, o zelo, o sentido de pertença e comprometimento para com a Missão da Congregação de Santa Cruz, que tornaram possível nossa trajetória de mais de 77 anos de missão em terras brasileiras. Que o nosso fundador – Pe. Basílio Moreau, interceda por todos nós para que continuemos firmes na missão a nós confiada, na certeza de que juntos somos mais fortes!

Artigo (4/4): 1 ano de Fratelli Tutti, por Rivaldo Oliveira

IV – Por um mundo mais justo e fraterno

Continuação da nossa série de artigos sobre a Carta Encíclica Fratelli Tutti (veja a última edição clicando aqui):

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O Santo Padre em sua Carta Encíclica sobre a amizade social sugere a vivência da fraternidade universal e da espiritualidade como fonte de vida e meios fundamentais necessários para vencermos a praga do individualismo. É possível construirmos uma sociedade e um mundo baseado nos valores de fraternidade universal. Isto é, uma humanidade que favoreça os direitos de igualdade e justiça para todos os indivíduos. Infelizmente atualmente vivemos em um mundo mutilado pelo ódio, pela ganância exacerbada e pela violência desmedida. Nas Palavras do Pontífice:

Para se caminhar junto a amizade social e à fraternidade universal, há que fazer um reconhecimento basilar e essencial: dar-se conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância. Se cada um vale tanto assim, temos que dizer clara e firmemente que o ‘simples fato ter nascido’ em um lugar com menos recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente’ (EG, n. 190). Trata-se de um princípio elementar da vida social que é, habitualmente e de várias maneiras, ignorado por aqueles que sentem que não convém à sua visão do mundo ou não serve aos seus objetivos (FT 106). 

Na Encíclica Fratelli Tutti, o Pontífice mapeia com maestria a realidade do mundo com seus avanços tecnológicos, com suas peculiaridades, regressões e rejeições aos imigrantes e empobrecidos, e critica o modelo econômico individualista que não se preocupam com o bem comum para todos. Neste sentido escreve Francisco:

O mundo existe para todos, porque todos nós, seres humanos, nascemos nesta terra com a mesma dignidade. As diferenças de cor, religião, capacidade, local de nascimento, lugar de residência e muitas outras não podem antepor-se nem ser usadas para justificar privilégios de alguns em detrimentos dos diretos de todos. Por conseguinte, como comunidade, temos o dever de garantir que cada pessoa viva com dignidade e disponha de adequadas oportunidades para seu desenvolvimento integral (FT 118).

Assim como em sua segunda Carta Encíclica Laudato Si sobre o cuidado que devemos ter com a nossa Casa Comum, a terceira Encíclica do Pontífice Romano sobre a fraternidade e a amizade social, adverte-nos também sobre os cuidados que devemos ter com esta nossa morada, a Casa Comum. Francisco se mostra preocupado com a destruição do meio ambiente e a criminosa exploração da terra, efeito da ambiciosa economia de mercado que pensa no lucro e no enriquecimento das grandes empresas que destroem a natureza a seu vil prazer, deixando as nossas riquezas naturais e o bem comum que deveria ser de todos em uma verdadeira sucata.

Neste âmbito escreve o Papa:

Quando falamos em cuidar da Casa Comum, que é o planeta, fazemos apelo àquele mínimo de consciência universal e de preocupação pelo cuidado mútuo que ainda possa existir nas pessoas. De fato, se alguém tem água de sobra, mas poupa-a pensando na humanidade, é porque atingiu um nível moral que lhe permite transcender a si mesmo e ao seu grupo de pertença. Isso é maravilhosamente humano! Requer-se esse mesmo comportamento para reconhecer os direitos de todo ser humano, incluindo os nascidos fora de nossas próprias fronteiras (FT 117).

É de suma importância o cuidado com a Casa Comum, mas que para cuidar desta Casa Comum se faz necessário cuidar do outro, favorecer políticas públicas e sociais de acolhimento, neste caso o migrante. A Casa Comum é de todos e não deveria haver fronteiras ou impedimentos que barrassem as pessoas de buscarem morada ou melhores condições de sobrevivência em outra pátria. Para o Papa Francisco: “em alguns países de chegada, os fenômenos migratórios suscitam alarme e temores, muitas vezes fomentados e explorados para fins políticos” (FT. n. 39).

Essas são realidades presentes e em nossos países, infelizmente, vemos os imigrantes como uma ameaça e não como nosso irmão e uma pessoa humana. Nesta perspectiva escreve o Papa Francisco:

A verdadeira qualidade dos diferentes países do mundo mede-se por essa capacidade de pensar não só como país, mas também como família humana; e isso se comprova sobretudo nos períodos críticos. Os nacionalismos fechados manifestam, em última análise, essa incapacidade de gratuidade, a distorcida concepção de que podem desenvolver-se à margem da ruína dos outros e que, fechando-se aos demais, estarão mais protegidos. O migrante é visto como um usurpador que nada oferece. Assim, chega-se a pensar ingenuamente que os pobres são perigosos ou inúteis; e os poderosos, generosos benefícios. Só poderá ter futuro uma cultura sociopolítica que inclua o acolhimento gratuito (FT 141).

A exemplo da espiritualidade do Pobrezinho de Assis e na humilde santidade do padroeiro da Itália, que tanto nos fala da importância do amor fraterno, inspirado naquele que com alegria e coração aberto se fez irmão da natureza e da santa pobreza, que com nobres e audaciosos gestos renovou a comunidade de homens e mulheres de fé há oito séculos atrás, o Papa conclama-nos a olharmos para o nossa Casa Comum visando o bem de todos os povos.

Em suma, o Santo Padre Francisco sonha com um mundo mais justo e fraterno, por uma economia integral que inclua os menos favorecidos sem discriminar e sem destruir a meio ambiente, sem poluir os rios e os animais.

Enfim, para colocarmos a cabo a construção deste ideal, se faz necessário não apenas vozes proféticas como a do Santo Padre, mas um projeto de políticas públicas que pense na saúde, no trabalho e no combate à fome e a pobreza, valorizando, assim, o ser humano e a Casa Comum em suas mais diversificadas realidades existenciais.

Bibliografia: FRANCISCO, PAPA. Carta encíclica Fratelli tutti. Sobre a fraternidade e a amizade social (FT). Roma: Librería Editrice Vaticana, 2020.


Rivaldo Oliveira, CSC

Artigo (3/4): 1 ano de Fratelli Tutti, por Rivaldo Oliveira

III – A Comunidade Mundial no acolhimento ao imigrante

Continuação da nossa série de artigos sobre a Carta Encíclica Fratelli Tutti (veja a última edição clicando aqui):

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Em vários países subdesenvolvidos falta trabalho estável e condições dignas de sobrevivência para homens e mulheres, imagens e semelhança do próprio Deus. Ademais, lhes faltam alimento, remédio, moradia e terra para cultivo. Neste sentido o Santo Padre Francisco adverte que:

Muitas vezes, constata-se que, de fato, os diretos humanos não são iguais para todos. O respeito a esses diretos ‘é condição preliminar para o próprio progresso econômico e social de um país. […]. Mas, observando com atenção aas nossas sociedades contemporâneas, nos deparamos com numerosas contradições que nos induzem a perguntar se realmente a igual dignidade de todos os seres humanos (FT 22). 

A economia mundial avança com suas leis excludentes do mercado monetário. O progresso, o desenvolvimento e a riqueza se encontram nas mãos de poucos. Pouquíssimos têm acesso a esta prosperidade que o mercado financeiro proporciona enquanto a maior parte da população mundial padece faltando-lhes o essencial para sobreviver, os recursos básicos que lhes garantem uma vida digna. Posto isto, o Vigário de Cristo nos diz em sua mais recente Encíclica que:

É verdade que uma tragédia global como à pandemia da Covid-19 despertou, por algum tempo, a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, em que o mal de um prejudica a todos. Recordamo-nos de que ninguém se salva sozinho, de que só é possível salvar-se juntos. ‘Tempestade – dizia eu – desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades (FT 32).

Outra temática significativa para o Santo Padre e que ele novamente lança luz sobre esta ótica na Fratelli Tutti é o tema das migrações em massas e as consequências da falta de políticas de acolhimento aos migrantes. Vivemos em uma guerra pandêmica da migração sem limites. Milhares de homens e mulheres deixam os países de origem e a sua pátria natal para tentar a vida em outro país, fugindo da fome, da guerra e de outras problemáticas sociais que assolam os seus lares.

Infelizmente, muitos destes nossos irmãos não são aceitos nos países em que almejam a construção de um novo capítulo de suas vidas. Estes países, mesmo vivenciando o apogeu de grandes desenvolvimentos econômicos, criam barreiras de impedimentos para que migrantes e estrangeiros não sejam acolhidos e aceitos em seu território. Percebemos com isto uma grande incongruência: se por um lado desenvolveram-se financeiramente, por outro falta-se desenvolver humanamente para acolher o outro; o necessitado; o estrangeiro. Acerca disto o Bispo de Roma destaca que:

Tanto na propaganda de alguns regimes políticos populistas como na leitura de abordagens econômico-liberais, defende-se que é preciso evitar, a todo custo, a chegada de pessoas migrantes. Simultaneamente, argumenta-se que convém limitar a ajuda aos países pobres, para que cheguem ao ‘fundo do poço’ e decidam adotar medidas de austeridade. Não se dão conta de que, por trás dessas afirmações abstratas e difíceis de sustentar, há muitas vidas dilaceradas. Muitos fogem da guerra, de perseguições, de catástrofes naturais (FT 37).  

Bibliografia: FRANCISCO, PAPA. Carta encíclica Fratelli tutti. Sobre a fraternidade e a amizade social (FT). Roma: Librería Editrice Vaticana, 2020.


Rivaldo Oliveira, CSC

Artigo (2/4): 1 ano de Fratelli Tutti, por Rivaldo Oliveira

II – O Homem Contemporâneo individualista, egoísta e narcisista

Continuação da nossa série de artigos sobre a Carta Encíclica Fratelli Tutti (veja a última edição clicando aqui):

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O mundo está se tornando cada vez mais uma ilha devido a luta de interesses e o desenvolvimento tecnológico avança assustadoramente. O ser humano contemporâneo ou secularizado está cada vez mais individualista, egoísta e narcisista. 

Percebe-se que o homem contemporâneo vivencia uma grande contradição em si mesmo. Se por um lado ele avança cada vez mais em suas tecnologias de pesquisa e em sua racionalidade, no qual poucos prosperam financeiramente, nota-se, entretanto que o ser humano tem muito ainda o que avançar no que tange às relações fraternas, consciência do bem comum, responsabilidade em desenvolver meios e mecanismos de proteções ao meio ambiente e a nossa Casa Comum.

Neste aspecto, o Papa Francisco escreve sabiamente estas palavras de alerta:

A tecnologia avança continuamente, mas ‘como seria bom se, ao aumento das inovações cientificas e tecnológicas, correspondessem também uma equidade e uma inclusão social cada vez maiores! Como seria bom se, enquanto descobrimos novos planetas longínquos, também descobríssemos as necessidades do irmão e da irmã que orbita, ao nosso redor! ’ (FT 31).

Proficuamente, se faz necessário políticas públicas que visem projetos de uma economia integral, isto é, sem destruir e contaminar o meio ambiente e o lugar por excelência onde habitamos, o nosso planeta terra. De fato, com a exploração dos recursos naturais, bens como, águas e outros recursos minerais são afetados e, como consequência desta falta de cuidado e zelo pelo meio ambiente, as pessoas os mais vulneráveis socialmente são as que mais sofrem com esta destruição ambiciosa dos grandes.

Em consonância a isto, adverte-nos o Sumo Pontífice na Carta Encíclica sobre a fraternidade e a amizade social:

Cuidar do mundo que nos rodeia e sustenta significa cuidar de nós mesmos. Mas precisamos nos construir como um ‘nós’ que habita a Casa Comum. Tal cuidado não interessa aos poderes econômicos que necessitam de um ganho rápido. Frequentemente as vozes que se levantam em defesa do meio ambiente são silenciadas ou ridicularizadas, disfarçando de racionalidade o que não passa de interesses particulares (FT 17). 

Neste aspecto, o espírito da competição e a insaciável ambição dos grandes pelos seus próprios interesses individuais sobrepõem ao cuidado e à consciência responsável em zelar pelo bem comum. De fato, a ambição do ser humano leva muitos a atitudes escravocratas em pleno século XXI, no qual percebemos que os que mais estão suscetíveis a esta exploração exacerbada são os idosos, os negros, as crianças e os imigrantes, classes de pessoas que mais sofrem com a mentalidade de exploração sem limites.

Neste sentido, o Papa Francisco ressalta o quanto o sistema capitalista está permeado e fomenta nas pessoas a mentalidade da cultura do descarte; da indiferença frente ao outro; da ganância desenfreada; do consumo sem limites e da destruição da Casa Comum, levando-nos a uma “seleção que favorece um setor humano digno de viver sem limites. No fundo, as pessoas já não são vistas como um valor primário a respeitar e cuidar, especialmente se são pobres ou deficientes” (FT 18). “E, assim, o medo nos priva do desejo e da capacidade de encontrar o outro (FT. n. 41).



Bibliografia: FRANCISCO, PAPA. Carta encíclica Fratelli tutti. Sobre a fraternidade e a amizade social (FT). Roma: Librería Editrice Vaticana, 2020.


Rivaldo Oliveira, CSC



Artigo (parte 1): 1 ano de Fratelli Tutti, por Rivaldo Oliveira

1 ano de Fratelli Tutti, a Encíclica social do Papa Francisco

Acesse a parte 2 / parte 3 / parte 4


Há um ano, o Papa Francisco publicava a Carta Encíclica Fratelli Tutti, sobre fraternidade e amizade social. Em comemoração à promulgação da carta, ao longo de outubro, você encontra, no site da Congregação de Santa Cruz, um artigo, dividido em quatro partes, produzido com base na terceira encíclica do Santo Padre, que busca aprofundar alguns pontos relevantes da Fratelli Tutti como a fraternidade universal, a economia, o trabalho e a opção evangélica pelos mais pobres.

“Com efeito, São Francisco, que se sentia irmão do sol, do mar e do vento, sentia-se ainda mais unido aos que eram de sua própria carne. Semeou paz por toda a parte e andou junto dos pobres, abandonados, doentes, descartados, enfim, dos últimos” (FT 2).

Nesta Encíclica, o Papa Francisco apresenta um diagnóstico de algumas tendências do mundo atual que dificultam a fraternidade universal e o Bem Comum. Ele reconhece que houve avanços na sociedade, como por exemplo a União dos países Europeus, o avanço para superar a divisão e o diálogo pela paz, bem como o fim das guerras em alguns países.

Mesmo havendo tais avanços, o Pontífice evidencia que infelizmente houve algumas regressões na história da humanidade como, por exemplo, à volta a estruturas ideológicas de forte patriotismo, o conservadorismo exacerbado por uma parcela da sociedade, a ganância do homem sobre o homem e a consequente exploração demasiada dos recursos naturais, isto é, da nossa Casa Comum. Eis o que Francisco nos diz:

A história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrônicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda de sentido social mascarada por uma suposta defesa dos interesses nacionais (FT 11).  

Na presente Encíclica o Santo Padre aborda determinados temas de suma importância para o homem contemporâneo, elementos como a economia, a política de mercado, o trabalho e suas nuances, assim como as consequências de tais temáticas e suas respectivas responsabilidades para a formação e construção de um mundo mais humano e igualitário.

Percebemos em relação ao quesito economia que houve um grande apogeu no desenvolvimento econômico, sobretudo os países de Primeiro Mundo no qual houve um enriquecimento explícito nas últimas décadas. Porém, não houve um crescimento econômico integral amplo que contemplasse a todos, isto é, um crescimento que vise à partilha e a divisão dos bens comuns numa perspectiva universal no qual todos possuem direitos iguais para receber os benefícios proporcionados por este grande desenvolvimento.

A este respeito, o Romano Pontífice, denuncia:

O mundo avança implacavelmente para uma economia que, utilizando os progressos tecnológicos, procurava reduzir os ‘custos humanos’; e alguns pretendem fazer-nos crer que era suficiente a liberdade de mercado para garantir tudo (FT 33).

Neste âmbito, uma imensa parcela da população mundial vive em extrema pobreza ou em condições sub-humanas, mesmo com todas as novas tecnologias que favorecem as condições de subsistência ao ser humano. Enquanto o mercado financeiro cresce cada vez mais e uma pequena parcela de grandes empresários e latifundiários fica cada vez mais rica, a maior parte da população fica à deriva; à margem deste progresso, aumentando assim cada vez mais a pobreza sistêmica.

Atualmente boa parte da população continua sem vez e sem voz; o número de empobrecidos aumentou assustadoramente sob o peso e as consequências da crise pandêmica que assola esta segunda década do Novo Milênio. Atento a esta realidade o Papa Francisco escreve exortando a todos em relação à economia de mercado:

‘Abrir-se ao mundo’ é uma expressão de que, hoje, se apropriaram a economia e as finanças. Refere-se exclusivamente à abertura aos interesses estrangeiros ou à liberdade dos poderes econômicos para investir sem entraves nem complicações em todo os países. Os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultual único. Essa cultura unifica mundo, mas divide as pessoas e as nações, porque ‘a sociedade cada vez mais globalizada tornamo-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos’ (CV, N.19).  […] em contrapartida aumentam os mercados, nos quais as pessoas desempenham funções de consumidores ou de espectadores (FT 12). 


Bibliografia: FRANCISCO, PAPA. Carta encíclica Fratelli tutti. Sobre a fraternidade e a amizade social (FT). Roma: Librería Editrice Vaticana, 2020.


Rivaldo Oliveira, CSC

Pe. José Paim: Memória de Nossa Senhora das Dores

Estamos próximos da memória litúrgica de Nossa Senhora das Dores, celebrada todos os anos em 15 de setembro, subsequente à Festa da Exaltação de Santa Cruz. À memória de Nossa Senhora das Dores une-se a Sexta-feira de Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, dia em que ele se entregou ao Pai pela humanidade e nos salvou do pecado e da morte. Na Sexta-feira da Semana Santa nos unimos aos padecimentos da Virgem Maria, aquela que na hora da morte de Jesus Cristo se unia de modo ímpar e ele, pronunciando o seu sim no silêncio do coração, ainda que trespassado pela dor de vê-Lo morrer na cruz, aceitando com ele o cumprimento da vontade do Pai em obediência total e filial, que aponta para a vitória genuína que destrói o mal e a morte.

Dos padecimentos da Virgem, a piedade popular colheu o que hoje muitos conhecem e rezam como as “sete dores” de Maria. A primeira dor está ligada à profecia de Simeão a respeito da espada que trespassará o coração de Maria (cf. Lc 2,35); a segunda dor no recorda a fuga de José e Maria com Jesus para o Egito (cf. Mt 2,13-23); a terceira dor, lembra os três dias que Maria e José procuram Jesus e o reencontram no Templo (cf. Lc 2,41-50; a quarta dor, nos reporta ao encontro de Maria com Jesus indo para o Calvário (cf. Jo 19,25); a quinta, a sexta e a sétima dores nos levam a contemplar os últimos momentos de Jesus Cristo e sua agonia final, isto é, a morte de Nosso Senhor, sua descida da cruz e seu sepultamento. Nestes últimos momentos da existência terrena do Filho, a Mãe permaneceu, como em toda sua vida, unida a ele. Faz-nos bem, especialmente em tempos difíceis e de provação, como os dias atuais, meditar a vida do Filho na companhia de Nossa Senhora.   

O que está recolhido na piedade popular é fruto do que a Igreja medita em Maria, à luz das Sagradas Escrituras e da Tradição da Igreja, sobre o seu mistério materno divino, de mãe e figura da Igreja, que pode ser visto por nós em Jo 19,25-27, evangelho lido na liturgia da memória de Nossa Senhora das Dores e posteriormente no n. 63 da Lumem Gentium, documento do Concílio Vaticano II.

No quarto evangelho, Nossa Senhora é mencionada duas vezes e em dois momentos altos da vida de Jesus Cristo. A primeira no início do ministério público de Jesus, nas bodas em Caná da Galileia (cf. Jo 2,1-11) e a segunda no fim da vida pública dele, na hora de sua crucificação (cf. Jo 19,25-27). Entre uma cena e outra é possível ver paralelismos que nos possibilitam entender a participação íntima de Maria na vida de Jesus Cristo, o que reforça para nós o dom de sua maternidade divina e sua missão como Mãe da Igreja e nossa Mãe, ela que continua a nos acompanhar com sua intercessão maternal em nossas dores e dificuldades diárias.

Em Caná, Maria é mencionada por João como a mãe de Jesus e o Filho a chama de mulher. Como mãe, atenta às necessidades da comunidade, no vinho que veio a faltar, ela pede a Jesus e mostra o Filho aos serventes para que a abundância da alegria de Deus se manifestasse na vida do Israel crente. Claro que o relato aponta para a revelação de Jesus como o Esposo da comunidade reunida esperando o seu Senhor, mas também podemos ver aqui a participação de Nossa Senhora na antecipação da hora do Filho em favor da humanidade carente de dignidade, pecadora, privada de amor, tentada ao desânimo.

Na consumação da vida terrena de Jesus, Maria é novamente referenciada pelo evangelista como a mãe de Jesus e mais uma vez o Filho a chama de mulher e também de mãe quando a entrega ao discípulo amado. O gesto de Jesus de entregar Maria por mãe ao discípulo amado não é mera piedade filial, mas aponta para algo maior, isto é, para a missão dela como Mãe da Igreja, nascida ali na sua morte e ressurreição e por consequência, como nossa mãe. Assim como o Pai revelou o seu amor pelo Filho (cf. Mt 3,17; Mc 9,2-13), Jesus Cristo na chegada de sua hora testemunha o seu amor pela Mãe, aquela que em tudo o agradou. Tudo que Maria viveu, fez e disse foi em perfeita união com Jesus Cristo, inclusive desde a concepção do Verbo divino no seu seio virginal, até o calvário, quando a união da Virgem de Nazaré com seu Filho alcança seu apogeu.

Nesse sentido, lê-se na Lumen Gentium: “Pelo dom e missão da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, e pelas suas singulares graças e funções, está também a Virgem intimamente ligada, à Igreja: a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo, como já ensinava S. Ambrósio” (n. 63).

Porque Nossa Senhora esteve em toda sua vida unida a Jesus Cristo, também no sofrimento dele na cruz, ela participa ativamente em nossas vidas, nas dores da humanidade, na vida dos que padecem e nos ensina que as dores do tempo presente não se encerram em si mesmas, mas tem seu sentido pleno no mistério pascal de Jesus Cristo, na oferta generosa de sua vida ao Pai por nós.

Ao fazer memória de Nossa Senhora das Dores peçamos que o Senhor reavive em nós a firmeza da fé e da esperança a fim de vivermos em tudo unidos a Jesus Cristo. Peçamos também a Deus, à semelhança de Maria, a graça da sensibilidade, da compaixão e da proximidade nossa aos seres humanos que mais sofrem nos dias atuais. Pensemos, por exemplo, em tantas mães que, a exemplo de Nossa Senhora, perdem seus filhos de modo brutal, neste mundo de tanta violência; pensemos em tantas formas de preconceitos e exclusão que matam e destroem; pensemos nas famílias que perderam seus entes queridos neste tempo de pandemia e peçamos ao Senhor que nos dê a graça de aprender com Nossa Senhora a permanecer unidos a Jesus Cristo e de participar ativamente na vida dos que sofrem.

Agradeçamos também a Deus por ter inspirado o Beato Basílio Moreau para a fundação da Congregação de Santa Cruz e por nos ter dado Nossa Senhora das Dores como nossa Padroeira. Deus conceda a todos nós, religiosos em Santa Cruz, a graça de renovar nossa vocação e nos comprometer com a missão de anunciar ao mundo que a Cruz de Cristo é nossa única esperança, de formar mentes e corações para Deus e para a sociedade e de, como Nossa Senhora das Dores, nos fazer presentes na vida das pessoas, especialmente dos mais necessitados, de colaborar ativamente na construção e um mundo melhor, mais justo e fraterno. Por fim, que o Senhor envie à Igreja e à Congregação de Santa Cruz jovens que queiram doar suas vidas para o serviço do Evangelho.

Nossa Senhora das Dores!

Rogai por nós!


Pe. José Paim, CSC

Dia dos Pais: o amor que fortalece

Reprodução: Pixabay

Há quem diga que, quando nasce um filho, nasce também um pai. Essa é uma fala comum porque, ao tornar-se pai, o homem torna-se também dono de uma força incondicional: algo capaz de levá-lo a extremos em busca da felicidade de seus filhos. Nasce também um novo tipo de amor dentro de cada um; um amor acolhedor, capaz de destruir barreiras. Por isso, nesse próximo dia 08 de agosto, comemoramos o Dia dos Pais e o dia do nascimento desses sentimentos tão lindos.

Na Bíblia, essa força e amor são representadas por José, pai terreno de Jesus e responsável por sua criação e educação enquanto ser humano. O santo, patrono dos irmãos de Santa Cruz e protetor da Igreja, aceitou Maria grávida do filho de Deus, permitindo que o Plano da Salvação fosse executado.

Muito de José se vê em Jesus, assim como muito dos pais se vê em seus filhos. Assim como José, Jesus nutria em si um grande respeito pelas mulheres, obediência às leis do homem e de Deus e valorização pelo trabalho, o que pode ser diretamente traçado de volta às essências de José. Mais do que exemplo de trabalhador e honestidade, José foi pai amoroso e leal a Jesus, cuidando e dando a Ele todas as condições para crescimento e desenvolvimento.

Sua lição paternal encontra-se no cuidado e no amor incondicionais que ofereceu a Jesus durante toda sua vida. José não entendeu tudo, mas tudo acolheu, assim como pais e mães ao redor do mundo fazem diariamente com seus filhos. Essa é a prova fundamental de seu carinho.

Durante a audiência geral, em fevereiro de 2015, o Papa Francisco deu importantes declarações sobre “o aspecto positivo da figura do pai de família”, e transmitiu aos presentes um pouco da importância da presença dos pais no núcleo familiar. “Sem a graça do Pai que vem do céu, os pais perdem a coragem a abandonam o campo. Mas os filhos precisam encontrar um pai que os espera quando retornam de seus insucessos. Farão de tudo para não admitir isso, para não deixarem ver, mas precisam; e não encontrar isso abre feridas difíceis de curar”, afirmou o Pontífice. “Recordemos que o dom mais valioso para os filhos não são as coisas, e sim o amor dos pais”, concluiu Francisco.

Uma coisa é certa: existem muitos tipos de pais no mundo. Há pais extrovertidos e introvertidos; há aqueles com grandes gestos de demonstração de amor e outros, com formas mais tímidas de externar os sentimentos. Há ainda aqueles pais que são mães, e mães que são pais. Mas uma coisa há em comum entre todos eles: o orgulho e amor por seus filhos.

Desejamos a todos um feliz Dia dos Pais.

Solenidade São Pedro e São Paulo, Apóstolos

 

Leitura dos Atos dos Apóstolos (At 12,1-11):

Naqueles dias, 1o rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos.

“Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão, guardado por quatro grupos de soldados, com quatro soldados cada um. Herodes tinha a intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa.

Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele.

Herodes estava para apresentá-lo. Naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, preso com duas correntes; e os guardas vigiavam a porta da prisão.

Eis que apareceu o anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: “Levanta-te depressa!” As correntes caíram-lhe das mãos.

O anjo continuou: “Coloca o cinto e calça tuas sandálias!” Pedro obedeceu e o anjo lhe disse: “Põe tua capa e vem comigo!”

Pedro acompanhou-o, e não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão.

Depois de passarem pela primeira e segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. Eles saíram, caminharam por uma rua e logo depois o anjo o deixou. Então Pedro caiu em si e disse: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!”

Salmo – Sl 33(34),2-3.4-5.6-7.8-9 (R. 5)

R.De todos os temores me livrou o Senhor Deus.

2Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo, *
seu louvor estará sempre em minha boca.
3Minha alma se gloria no Senhor; *
que ouçam os humildes e se alegrem! R.

4Comigo engrandecei ao Senhor Deus, *
exaltemos todos juntos o seu nome!
5Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu, *
e de todos os temores me livrou. R.

6Contemplai a sua face e alegrai-vos, *
e vosso rosto não se cubra de vergonha!
7Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido, *
e o Senhor o libertou de toda angústia. R.

😯 anjo do Senhor vem acampar *
ao redor dos que o temem, e os salva.
9Provai e vede quão suave é o Senhor! *
Feliz o homem que tem nele o seu refúgio! R.

Leitura da Segunda Carta de São Paulo a Timóteo (2Tm 4,6-8.17-18):

Caríssimo: Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa.

Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão.

O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos! Amém.

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus (Mt 16,13-19)

Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. 

Reflexão

São Lucas que escreveu o livro dos Atos dos Apóstolos dá muitos detalhes do que tem acontecido a Pedro quando foi preso e depois libertado milagrosamente. A prisão de Pedro era guardada por 16 soldados. Pedro foi preso com duas correntes e vigiado por dois soldados. Alguns guardas vigiavam também a porta da prisão. Apesar de todo esse esquema de segurança no cárcere em que Pedro estava, a noite ele foi tirado do cárcere escuro sem saber exatamente o que estava acontecendo com ele. Uma vez na rua, Pedro caiu em si e disse: “Agora sei, de fato o Senhor enviou seu anjo para me libertar”.

Dos doze apóstolos Pedro foi o primeiro a testemunhar a divindade de Jesus. Foi quando Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Respondendo Jesus lhe disse: “Por isso, te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”.

PEDRO, O PESCADOR

Simão Pedro foi escolhido pessoalmente por Jesus, junto com seu irmão André. Ele era pescador assim como João e Tiago, os filhos de Zebedeu. Jesus o chamou de Pedra (Pedro em português) e disse que o faria um pescador de homens, embora o deixasse pescar ainda no mar de Tiberíades (Mc 1, 16-18). Como era sua fé em Jesus? Um dia se atirou ao mar para encontrar o mestre, mas por causa do vento se apavorou e Jesus teve que estender a mão para salvá-lo: “Homem fraco na fé, por que você duvidou”. Disse-lhe Jesus (Mt14, 22).

PEDRO, O SEGUIDOR FIEL

Na Última Ceia, quando Jesus fazia seu discurso de despedida, Pedro interrompeu o mestre perguntando: “Senhor para onde vais?” E Jesus responde: “Para onde eu vou, você não pode me seguir”. Pedro então indaga: “Senhor por que não posso seguir-te agora? Eu daria a minha própria vida por ti“. E Jesus retruca: “Antes que o galo cante, você me negará três vezes” (J013, 36-38).

Também era corajoso! Quando os guardas chegaram no Jardim das Oliveiras para prender Jesus, Pedro tirou sua espada e atacou um empregado do Sumo Sacerdote decepando sua orelha direita (J018, 10). Era mais corajoso do que João: foi o apóstolo que primeiro entrou no túmulo depois da Ressurreição de Jesus (J020, 8).

PEDRO O PECADOR PERDOADO

Ele pecou gravemente duas vezes: foi quando Jesus profetizou sua paixão e morte pelo caminho. Pedro foi repreender o mestre porque achava um absurdo Jesus ser assassinado um dia. Naquela vez Jesus o xingou dizendo: “Fique longe de mim Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, porque não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens!” (Mt16, 21). Interrogado no pátio do tribunal religioso Pedro negou três vezes ter conhecido Jesus. Na terceira vez ele começou a maldizer e a jurar, dizendo: “Nem conheço esse homem!“. Nesse instante, o galo cantou. Pedro se lembrou então do que Jesus tinha dito: “Antes que o galo cante, você me negará três vezes”.

Antes de receber a função de Supremo Pastor, Pedro teve que passar por um teste, uma sabatina feita por Jesus: “Pedro, você me ama mais do que estes?” E Pedro responde: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. A indagação de Jesus continua e na terceira vez Pedro diz: “Senhor, tu conheces tudo, e sabes que te amo”. E então Jesus encerra o teste dizendo: “Cuide das minhas ovelhas” (J021, 15-17).

PAULO O PERSEGUIDOR

Fariseu fanático, Paulo queria combater os ensinamentos de Jesus que ele achava contrários à sua religião, baseada no cumprimento das leis e de méritos diante de Deus. Nascido em Tarso, na Cilicia, ele gozava de duas cidadanias. Cinco anos mais novo do que Jesus, era fabricante de velas e de tendas. Estudou em Jerusalém, era aluno do famoso fariseu Gamaliel e falava várias línguas. Antes da sua conversão, enquanto SAULO, organizou um grupo terrorista para acabar com os cristãos: ‘Saulo se esforçava para acabar com a igreja. Ele ia de casa em casa, arrestava homens e mulheres e os jogava na cadeia’ (At8, 3). ‘Saulo aprovou a morte de Estevão (At8, 1). Lucas escreveu que enquanto as pessoas atiravam pedras para matar Estevão, ‘um moço chamado Saulo tomava conta das suas capas’ (At7, 58).

Agarrado por uma multidão Ele foi maltratado em Jerusalém. O tribuno soube e Paulo pediu para explicar-se diante do povo que queria matá-lo e dizia: “Persegui mortalmente este caminho, prendendo e lançando à prisão homens e mulheres, como o sumo sacerdote e todos os anciãos podem testemunhar. Eles até me deram carta de recomendação para os irmãos de Damasco, e para lá em Jerusalém. No entanto, aconteceu que na viagem, estando já perto de Damasco, aí pelo meio-dia, uma grande luz que vinha do céu brilhou ao redor de mim. Então caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: ‘Saulo, Saulo, por que você me persegue?’ Eu perguntei: “Quem és tu, Senhor?” Ele me respondeu: ‘Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem você está perseguindo!’ (At 22, 4-8) (Cf. GII, 12-24; F13, 4-12).

PAULO CONVERTIDO MISSIONÁRIO

Paulo foi o maior de todos os missionários que passaram pela terra até hoje. Desenvolveu uma TEOLOGIA toda baseada no Amor Gratuito de Jesus e na Misericórdia do Pai. São Paulo foi quem desenvolveu a teologia da GRAÇA. Por diferentes meios, os dois congregaram a única família e, unidos pela coroa do martírio, recebem hoje, por toda a terra, igual, veneração. Sigamos os passos desses gigantes da fé cristã e peçamos a intercessão deles em favor do mundo todo.


 Pe. Lourenço, CSC

 

O Domingo: 11º Domingo do Tempo Comum

Leitura da Profecia de Ezequiel (Ez 17,22-24):

Assim diz o Senhor Deus: “Eu mesmo tirarei um galho da copa do cedro, do mais alto de seus ramos arrancarei um broto e o plantarei sobre um monte alto e elevado. Vou plantá-lo sobre o alto monte de Israel. Ele produzirá folhagem, dará frutos e se tornará um cedro majestoso. Debaixo dele pousarão todos os pássaros, à sombra de sua ramagem as aves farão ninhos. E todas as árvores do campo saberão que eu sou o Senhor, que eu sou o Senhor, que abaixo a árvore alta e elevo a árvore baixa; faço secar a árvore verde e brotar a árvore seca. Eu, o Senhor, digo e faço”.

Salmo – Is 12,2-3.4bcd.5-6 (R.3)

R. Com alegria bebereis do manancial da salvação.

2Eis o Deus, meu Salvador, eu confio e nada temo;*
o Senhor é minha força, meu louvor e salvação.
3Com alegria bebereis no manancial da salvação.R.

4e direis naquele dia: ‘Dai louvores ao Senhor,
invocai seu santo nome, anunciai suas maravilhas,*
entre os povos proclamai que seu nome é o mais sublime.R.

5Louvai cantando ao nosso Deus, que fez prodígios
e portentos,*
publicai em toda a terra suas grandes maravilhas!
6Exultai cantando alegres, habitantes de Sião,*
porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!’R.

Leitura da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios (2Cor 5,6-10):

Irmãos: Estamos sempre cheios de confiança e bem lembrados de que, enquanto moramos no corpo, somos peregrinos longe do Senhor; pois caminhamos na fé e não na visão clara. Mas estamos cheios de confiança e preferimos deixar a moradia do nosso corpo, para ir morar junto do Senhor. Por isso, também nos empenhamos em ser agradáveis a ele, quer estejamos no corpo, quer já tenhamos deixado essa morada. Aliás, todos nós temos de comparecer às claras perante o tribunal de Cristo, para cada um receber a devida recompensa – prêmio ou castigo – do que tiver feito ao longo de sua vida corporal.

Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos (Mc 4,26-34)

Naquele tempo, Jesus disse à multidão: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou”.

E Jesus continuou: “Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representá-lo? O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra”.

Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. E só lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo.

Reflexão

O povo judeu, exilado na Babilônia durante 48 anos, sofreu muito. Sem mais templo para onde rezar e com pouca casa de oração, muita gente perdeu a fé em Javé. Agora, o povo pode voltar para sua terra. Esse pequeno “resto” é comparado pelo profeta Ezequiel a um galho, um raminho fraco, mas que servirá de muda para ser transplantado em Jerusalém e crescerá de novo. Este pequeno rebento criará raízes e se tornará, pela força de Deus, uma árvore frondosa na qual os pássaros poderão abrigar-se. O que importa é plantar este galho. Já quanto ao crescimento, será obra de Deus. Pois é Ele quem eleva a árvore baixa! O povo rebaixado pelo exílio poderá reerguer-se. Como diz o canto do salmista: “o homem justo” – ajustado, à vontade de Deus – “cresce igual ao cedro do Líbano”.

O Reino de Deus é uma realidade misteriosa, a qual Jesus costuma anunciar por meio de parábolas. Antes de tudo o Reino é obra de Deus. Todavia, sem a participação dos discípulos missionários de Jesus, que somos nós, o Reino não cresce, pois é como um ser vivo. Todo ser vivo começa pequeno. No início, é uma semente. O agricultor seleciona a semente, lavra a terra, semeia no tempo certo, contando com a chuva. O resto, a natureza encarrega-se de fazer! Porém, a natureza procede lentamente. É preciso paciência. A planta não aparece de forma espetacular como acontece numa tempestade, isto é, de repente.

Certa vez, meu pai enterrou algumas sementes de feijão ornamental no jardim da nossa casa. Eu, com 3 anos de idade, me arrastava no chão do jardim todos os dias para ver os brotos de feijão saírem da terra. Passaram-se os dias e nada acontecia, até que um belo dia apareceram alguns deles. Eu ia ver todos os dias. Uma semana depois, apareceram três novos brotos.  Eram atrasados e menores. Eu puxei cada um desses últimos para ficarem iguais aos outros, mas eles quebraram. Aí que eu entendi que precisava ter paciência com o crescimento da vida. O crescimento do Reino também é assim: A Palavra de Deus é anunciada (semeada). O ser humano acolhe e assimila a mensagem até ela dar fruto. Porém, é preciso contar com o tempo e ter paciência.

A segunda parábola aponta o contraste entre a pequena semente de mostarda e o arbusto grande que ela produz. Aqui podemos perceber o aspecto social do Reino de Deus. No Reino, a multiplicação dos pequenos gestos de amor, de justiça e de solidariedade podem ter uma grande influência na sociedade. São humildes exemplos na construção de um mundo novo.

Muitos cidadãos americanos querem ainda dominar o mundo. A fama, o poder e a grandeza estão na moda. As nações querem apresentar resultados grandiosos e muito visíveis. O Reino de Deus também tem que ser o maior, pois Deus é o Todo-poderoso. Todavia a lei da evolução sempre exige uma união mais firme entre as partes para que apareça um ser maior. Ser mais é unir-se mais e unir-se mais é ser mais. Se todos os países chegassem a formar uma união baseada na declaração universal dos direitos da pessoa humana, a humanidade estaria perto de conhecer o Reino de Deus. O Reino de Deus é espiritual e interior, baseado sobre valores como AMOR, JUSTIÇA, VERDADE, LIBERDADE, FRATERNIDADE, SOLIDARIEDADE E PACIÊNCIA. Além disso, o Reino de Deus exige o reconhecimento de um PAI COMUM. Para viver como irmãos e irmãs precisamos reconhecer que somos filhos e filhas do mesmo Pai.

Nós cristãos devemos dar um exemplo ao mundo pela fé que temos em fazer parte de um Templo Espiritual feito de pedras vivas, cuja Pedra Fundamental é Jesus Ressuscitado. É hora de provar isso por um comportamento coerente com a fé no Evangelho. Paciência! O Reino ainda é pequeno. Mas o Reino vai acontecer custe o que custar pois é obra de Deus. E juntos podemos acelerar sua realização! É só querer. – Com mãos à obra, sim!


 Pe. Lourenço, CSC

 

Pe. José Paim: Sagrado Coração de Jesus

Estamos às portas da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, celebrada todos os anos na primeira sexta-feira da semana subsequente à festa de Corpus Christi, estendida em toda a Igreja por Pio IX a partir de 1856. Mais do que uma devoção, a festa do Sagrado Coração de Jesus trata-se de uma espiritualidade na vida da Igreja, da qual emana a devoção ao mesmo Coração e tudo aquilo que a enriquece: cantos, tributos, louvores, orações de consagração, de reparação, ato de desgravo, ladainha etc. A espiritualidade não se esgota à devoção e não é periférica na vida da Igreja. Ela é central em consideração àquilo que simboliza, ou melhor dizendo, Àquele a quem manifesta: o Verbo de Deus encarnado e sacrificado na Cruz por infinito amor aos homens. Nele contemplamos e nos aproximamos do amor eterno de Deus pela humanidade. Nele somos tocados pelo amor divino e tocamos o amor em Pessoa, conforme lemos em 1Jo 1, 1-2:

“O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam, é nosso tema: a Palavra da Vida. A Vida se manifestou: nós a vimos, damos testemunho e vos anunciamos a Vida que estava junto do Pai e se manifestou a nós”.

Quando Miriam e Aarão falaram contra Moisés, Deus os repreendeu dizendo: “A ele falo face a face; em presença, e não adivinhando, ele contempla a figura do Senhor” (Nm 12, 8). Diante do Senhor, Moisés tem um lugar excepcional, de amigo, com quem Deus falava em proximidade, mas em Jesus Cristo, Deus se manifestou como nunca tinha feito, de modo insuperável, a partir de uma proximidade inigualável, isto é, em Pessoa encarnada. A inacessibilidade divina torna-se acessibilidade e tudo isso graças ao amor de Deus por nós, não qualquer tipo de amor, mas o amor que vem a nós na concretude da carne. Com efeito, Deus é amor que se encarna, como bem recordou certa vez o Papa Francisco:

“Um amor que não reconhece que Jesus veio em Carne, na Carne, não é o amor que Deus nos comanda. É um amor mundano, é um amor filosófico, é um amor abstrato, é um amor pequeno, é amor soft. Não! O critério do amor cristão é a Encarnação do Verbo. Quem diz que o amor cristão é outra coisa, este é o anticristo! Que não reconhece que o Verbo veio na Carne. E esta é a nossa verdade: Deus enviou o seu Filho, se encarnou e fez uma vida como nós. Amar como Jesus amou; amar como Jesus nos ensinou; amar com o exemplo de Jesus; amar, caminhando na estrada de Jesus. E a estrada de Jesus é dar a vida”. (FRANCISCO, homilia proferida pelo Papa Francisco na Capela da Casa Santa Marta em 11/11/2016).

Tudo isso vemos espelhado na espiritualidade, como também na imagem e na devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Tais realidades não somente nos recordam, em forma de símbolo, o amor de Deus por nós, mas nos põe na dinamicidade do amor divino que gera e renova todas as coisas. Deus não nos ama em Jesus Cristo de forma simbólica nem reduzida, mas de maneira total. Por isso também quando falamos da espiritualidade e da devoção ao Coração de Jesus, não se trata de um amor a um pedaço de Jesus ou de um amor físico, mas de um amor do ser humano para Cristo, de pessoa a pessoa, ele que primeiro nos amou. Quando Jesus aponta o Seu Coração, não quer dizer que Deus nos ama pela metade, mas de todo de Si a partir do Coração de seu Filho.

O coração exposto na imagem é um simbolismo, ou ainda, uma expressão viva daquele Amor Maior, da bondade divina que sempre nos acolhe, da verdade que nos salva e liberta. É manifestação da fonte salvadora que jorra perenemente pela humanidade, como rezamos no prefácio do Coração de Jesus: “Elevado na cruz, entregou-se por nós com imenso amor. E de seu lado aberto na lança fez jorrar, com a água e o sangue, os sacramentos da Igreja, para que todos, atraídos ao seu coração, pudessem beber, com perene alegria, na fonte salvadora”.      

Na fonte desta espiritualidade muitos santos beberam, foram educados, dela se inspiraram para crescer em união íntima com Jesus Cristo e a muitos ensinaram como progredir no amor a Deus e ao próximo. Dentre os muitos santos, lembramos de Santa Gertrudes de Helfta ou Santa Gertrudes, a Grande (séc. XIII); São João Eudes (séc. XVII), grande apóstolo do Sagrado Coração de Jesus; Beata Maria do Divino Coração (séc. XIX), mensageira do Sagrado Coração de Jesus; Santa Margarida Maria de Alacoque (séc. XVII), grande propagadora da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Por fim lembramos o nosso fundador Beato Basílio Moreau. Ele também bebeu na espiritualidade do Coração de Jesus e a deixou para nós, religiosos em Santa Cruz. Assim como consagrou os Irmãos a São José e as Irmãs ao Coração de Maria, consagrou os padres e seminaristas ao Coração de Jesus. Pediu que praticássemos a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e o imitássemos a fim de conformar nosso coração ao Coração de Jesus Cristo.

O pedido do nosso fundador deve nos motivar a reavivar o dom da nossa vocação consagrada e sacerdotal a fim de testemunhar no mundo de hoje, tão esquecido de Deus, tão indiferente e frio ao amor do Coração de Jesus, também tão dividido entre os seres humanos, que Deus continua a nos amar e a nos chamar a Si. Somos chamados a descobrir o Coração de Jesus, o Filho amado do Pai que nos revela os segredos íntimos de Deus e nos chama a acolhê-Lo no seu Evangelho de Salvação e sobretudo a descobrir, como afirmou o Papa Francisco, a proximidade, ternura e compaixão de Deus. (FRANCISCO. Angelus. 14/02/2021).


Pe. José Paim, CSC