Pe. José Paim: Sagrado Coração de Jesus

Estamos às portas da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, celebrada todos os anos na primeira sexta-feira da semana subsequente à festa de Corpus Christi, estendida em toda a Igreja por Pio IX a partir de 1856. Mais do que uma devoção, a festa do Sagrado Coração de Jesus trata-se de uma espiritualidade na vida da Igreja, da qual emana a devoção ao mesmo Coração e tudo aquilo que a enriquece: cantos, tributos, louvores, orações de consagração, de reparação, ato de desgravo, ladainha etc. A espiritualidade não se esgota à devoção e não é periférica na vida da Igreja. Ela é central em consideração àquilo que simboliza, ou melhor dizendo, Àquele a quem manifesta: o Verbo de Deus encarnado e sacrificado na Cruz por infinito amor aos homens. Nele contemplamos e nos aproximamos do amor eterno de Deus pela humanidade. Nele somos tocados pelo amor divino e tocamos o amor em Pessoa, conforme lemos em 1Jo 1, 1-2:

“O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam, é nosso tema: a Palavra da Vida. A Vida se manifestou: nós a vimos, damos testemunho e vos anunciamos a Vida que estava junto do Pai e se manifestou a nós”.

Quando Miriam e Aarão falaram contra Moisés, Deus os repreendeu dizendo: “A ele falo face a face; em presença, e não adivinhando, ele contempla a figura do Senhor” (Nm 12, 8). Diante do Senhor, Moisés tem um lugar excepcional, de amigo, com quem Deus falava em proximidade, mas em Jesus Cristo, Deus se manifestou como nunca tinha feito, de modo insuperável, a partir de uma proximidade inigualável, isto é, em Pessoa encarnada. A inacessibilidade divina torna-se acessibilidade e tudo isso graças ao amor de Deus por nós, não qualquer tipo de amor, mas o amor que vem a nós na concretude da carne. Com efeito, Deus é amor que se encarna, como bem recordou certa vez o Papa Francisco:

“Um amor que não reconhece que Jesus veio em Carne, na Carne, não é o amor que Deus nos comanda. É um amor mundano, é um amor filosófico, é um amor abstrato, é um amor pequeno, é amor soft. Não! O critério do amor cristão é a Encarnação do Verbo. Quem diz que o amor cristão é outra coisa, este é o anticristo! Que não reconhece que o Verbo veio na Carne. E esta é a nossa verdade: Deus enviou o seu Filho, se encarnou e fez uma vida como nós. Amar como Jesus amou; amar como Jesus nos ensinou; amar com o exemplo de Jesus; amar, caminhando na estrada de Jesus. E a estrada de Jesus é dar a vida”. (FRANCISCO, homilia proferida pelo Papa Francisco na Capela da Casa Santa Marta em 11/11/2016).

Tudo isso vemos espelhado na espiritualidade, como também na imagem e na devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Tais realidades não somente nos recordam, em forma de símbolo, o amor de Deus por nós, mas nos põe na dinamicidade do amor divino que gera e renova todas as coisas. Deus não nos ama em Jesus Cristo de forma simbólica nem reduzida, mas de maneira total. Por isso também quando falamos da espiritualidade e da devoção ao Coração de Jesus, não se trata de um amor a um pedaço de Jesus ou de um amor físico, mas de um amor do ser humano para Cristo, de pessoa a pessoa, ele que primeiro nos amou. Quando Jesus aponta o Seu Coração, não quer dizer que Deus nos ama pela metade, mas de todo de Si a partir do Coração de seu Filho.

O coração exposto na imagem é um simbolismo, ou ainda, uma expressão viva daquele Amor Maior, da bondade divina que sempre nos acolhe, da verdade que nos salva e liberta. É manifestação da fonte salvadora que jorra perenemente pela humanidade, como rezamos no prefácio do Coração de Jesus: “Elevado na cruz, entregou-se por nós com imenso amor. E de seu lado aberto na lança fez jorrar, com a água e o sangue, os sacramentos da Igreja, para que todos, atraídos ao seu coração, pudessem beber, com perene alegria, na fonte salvadora”.      

Na fonte desta espiritualidade muitos santos beberam, foram educados, dela se inspiraram para crescer em união íntima com Jesus Cristo e a muitos ensinaram como progredir no amor a Deus e ao próximo. Dentre os muitos santos, lembramos de Santa Gertrudes de Helfta ou Santa Gertrudes, a Grande (séc. XIII); São João Eudes (séc. XVII), grande apóstolo do Sagrado Coração de Jesus; Beata Maria do Divino Coração (séc. XIX), mensageira do Sagrado Coração de Jesus; Santa Margarida Maria de Alacoque (séc. XVII), grande propagadora da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Por fim lembramos o nosso fundador Beato Basílio Moreau. Ele também bebeu na espiritualidade do Coração de Jesus e a deixou para nós, religiosos em Santa Cruz. Assim como consagrou os Irmãos a São José e as Irmãs ao Coração de Maria, consagrou os padres e seminaristas ao Coração de Jesus. Pediu que praticássemos a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e o imitássemos a fim de conformar nosso coração ao Coração de Jesus Cristo.

O pedido do nosso fundador deve nos motivar a reavivar o dom da nossa vocação consagrada e sacerdotal a fim de testemunhar no mundo de hoje, tão esquecido de Deus, tão indiferente e frio ao amor do Coração de Jesus, também tão dividido entre os seres humanos, que Deus continua a nos amar e a nos chamar a Si. Somos chamados a descobrir o Coração de Jesus, o Filho amado do Pai que nos revela os segredos íntimos de Deus e nos chama a acolhê-Lo no seu Evangelho de Salvação e sobretudo a descobrir, como afirmou o Papa Francisco, a proximidade, ternura e compaixão de Deus. (FRANCISCO. Angelus. 14/02/2021).


Pe. José Paim, CSC

Comunicação

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