200 anos de fundação – Irmãos de São José

Aos Educadores de Santa cruz:

Estimados Educadores de Santa Cruz, saudações fraternas.

Alegro-me por saudar cada um de vocês, mesmo que de maneira “virtual” e por poder compartilhar, neste dia, em que fazemos memória aos 200 anos de fundação dos Irmãos de São José- homens educadores, pioneiros de Santa Cruz e discípulos do Senhor- um pouco sobre o “Espírito fundacional de Santa Cruz”. Com júbilo, faço uso desta oportunidade para compartilhar um pouco da história e do legado que recebemos do pioneiro da missão de Santa Cruz: Padre Jacques-François Dujarié, um homem de profunda fé e compromisso com os mais pobres.

Tudo começou com Dujarié, “um pastor com cheiro de ovelhas”, um pastor que conheceu e doou sua vida por seu povo. Um padre diocesano de Le Mans – França, que, no dia 15 de julho de 1820, recebeu a primeira vocação destinada aos Irmãos de São José.

Dujarié foi um homem que cultivou e viveu uma profunda intimidade com Deus e, por isso, foi capaz de avançar, mesmo quando confrontado com realidades que o desafiaram a abandonar sua vocação, fortalecido por seu desejo de servir ao Senhor servindo às pessoas mais necessitadas. Os desafios enfrentados foram muitos, principalmente devido ao conflito, entre a Igreja Católica e o Estado, durante o auge da Revolução Francesa e no período pós-revolucionário, resultante do fervor antirreligioso que corria desenfreado pela sociedade francesa na época.

Mesmo diante de tantas perseguições e adversidades, Dujarié se manteve fiel à sua vida de oração e intimidade com o Senhor, o que o fortaleceu na vivência de sua vocação por meio de uma vida de simplicidade, santidade, dedicação e atenção aos, pessoal e espiritualmente desvalidos. Assim expressou sua vocação: “Sou padre para ser pai do órfão, consolo da viúva, apoio dos pobres e amigo dos que sofrem”. Em um sentido mais amplo, estava atento às necessidades da sociedade e da Igreja e, para atendê-las, Dujariê permaneceu forte e convencido de seu chamado vocacional para servir aos mais necessitados como verdadeiro pastor; aquele que cuida e nutre seu rebanho mesmo em tempos de adversidade e perseguição.

O Pe. Dujarié viveu seu ministério presbiteral e o compromisso com a Igreja em meio a grandes dificuldades. Sua vida esteve frequentemente em perigo em várias ocasiões, passando por tudo isso com o reconhecimento e a certeza do auxílio e presença da Divina Providência. Viveu como alguém realmente comprometido com o cuidado do seu próximo e comprometido com a realização do Reino de Deus em meio ao seu povo. O amor de Deus alimentou o seu coração e lhe deu coragem para seguir em frente sem desistir ou abandonar a missão que o Senhor o confiara, perseverando nesse caminho, com o coração cheio de esperança e confiança em Deus, mesmo diante de tantos desafios e tempestades. Sua disponibilidade e sua audácia em servir os mais necessitados, mesmo em meio à perseguição religiosa e à divisão presente na Igreja entre os sacerdotes que seguiram o Estado francês e aqueles que seguiram a Santa Sé, foram gestos heroicos.

Nesse contexto de vida e missão, Dujarié fundou as Irmãs da Divina Providência e, posteriormente, os Irmãos de São José. Aqueles primeiros homens educadores foram reunidos para atender as necessidades das famílias campesinas na França pós-revolução, onde a educação e a instrução de crianças e jovens se mostravam de grande necessidade. Atento às necessidades de seu povo, o Pe. Dujarié inspirou muitos ao serviço, com zelo e dedicação, no ministério educacional, enviando seus irmãos a longínquos povoados franceses, com o propósito de oferecer a melhor formação e educação às crianças e aos jovens.

Esses primeiros educadores, homens que consagraram suas vidas em prol da formação e educação de crianças e jovens, constituíram, mais tarde, a Congregação de Santa Cruz, na ocasião do ato fundacional da Congregação, em 1837, pelo Beato Basílio Moreau. Por isso, reconhecemos também o Pe. Jaques Dujarié como fundador dos Irmãos de Santa Cruz. Esses religiosos irmãos tiveram uma evolução notável durante os anos subsequentes e, hoje, nós nos reportamos – como inspiração- ao esforço empreendido pelo Padre Dujarié, há 200 anos, ao convocar um grupo de homens para, naquele momento histórico e particular, trabalhar nas paróquias rurais do centro da França. Sem as experiências, dificuldades, dedicação e amor ao serviço desses homens, a história da Congregação de Santa Cruz poderia ser muito diferente do que é.

Nestes duzentos anos desde os dias do Pe. Dujarié, os Irmãos de São José- agora os Irmãos de Santa Cruz, percorram um longo caminho desde as pequenas aldeias da França. Cruzaram o globo e levaram com eles o espírito e o desejo daquele homem simples e humilde de “renovar a sociedade” e “educar e formar a juventude”, estabelecendo escolas, faculdades e universidades, centros educacionais e escolas técnicas em grandes cidades, mas também em áreas desprovidas de serviços básicos, respondendo às necessidades das pessoas que Deus os confiou para serem servidas.

A marca do Fundador dos Irmãos de São José, que teve uma visão de irmãos que estavam a serviço da igreja e da sociedade, que estavam a serviço das crianças e dos jovens necessitados, e que trabalhavam para renovar a sociedade, é muito pertinente ainda nos dias atuais. A vocação do irmão religioso, desde os primórdios de sua concepção, se desenvolveu e continua a ser um dom de Deus para a humanidade e a Igreja. É um chamado especial, marcado pelo princípio da fraternidade. Somos chamados a sermos irmãos em um espírito de fraternidade universal: nosso primeiro chamado é cultivar a fraternidade a partir de nosso testemunho e modo de viver. É uma maneira de se relacionar, que é valorizada pelas pessoas a quem servimos e ajudamos a potencializar o que há de melhor nelas.

O que foi visto, inicialmente, como uma maneira de viver o chamado do evangelho, ampliou-se para ser um meio de difundir o evangelho de forma tangível, por meio de palavras e ações. Neste ponto, pode-se evocar o exemplo de Francisco, o Irmão de Assis, que soube viver sua vocação de irmão de modo sublime, testemunhando um novo jeito de se relacionar com toda a criação, pautando-se em uma concepção ecológica de viver como princípio fundamental de fraternidade universal. Um outro exemplo profundamente apropriado de proteção e inspiração é São José, pai terreno de Jesus Cristo. José, o carpinteiro de Nazaré, chamado para ser o pai, o educador e o protetor de Jesus, é modelo também para nós, irmãos religiosos. Em muitas situações, somos chamados também, a ser “o pai, o educador e o protetor” de muitos que a nós o Senhor confiou para prover cuidado, proteção e formação. Ao longo destes duzentos anos, cada Irmão de Santa Cruz, por meio de seu testemunho de vida, pôde compartilhar uma vivência ou experiência marcada por uma relação de fraternidade, serviço e aprendizado com aquelas pessoas que o Senhor nos enviou.

A sociedade nos desafia constantemente a responder às mais diversas necessidades. Como o processo de globalização tem contribuído para mudanças sociais significativas, a Igreja também tem sinalizado mudanças significativas em diálogo com essa sociedade. E não poderia ser diferente. Do mesmo modo, em nossa Missão Educacional, devemos nos conscientizar de que uma educação multidimensional de qualidade, que garanta o exercício e o fortalecimento da cidadania, continua sendo uma resposta importante aos enormes problemas que enfrentamos. Por esta razão e inspirados em Dujarié, somos chamados a incluir, em nossas propostas educativas, aqueles que estão imersos em condições sub-humanas de vida, marcadas e afetadas pelas desigualdades sociais. Somos chamados a nos despir de tudo o que nos impede de realmente encontrarmos o nosso próximo, de servirmos aquele que a sociedade, por alguma razão, abandonou. É para eles que o Senhor nos enviou, nutridos por Seu amor, para educar e formar na fé, numa perspectiva de humanismo solidário e de interdependência existencial, na qual a indiferença e apatia social não têm espaço.

Pe. Dujarié soube, por sua opção pela justiça social e por condições igualitárias de vida, responder às necessidades espirituais e educacionais de um mundo violento, intolerante e desafiador. Devemos também nos deixar penetrar pela sua visão e espírito integrador, carregando esperança e atitudes concretas que contribuam para a construção de uma sociedade que valorize e difunda o valor da diversidade e da inclusão. Em tal sociedade, as diferenças não são um motivo para a violência, mas sim, pela via da educação multidimensional, um meio eficaz de cultivar uma cultura inclusiva, em que todos possam conviver de maneira fraterna e corresponsável.

Hoje, o espírito de Pe. Dujarié está presente e atuante na Missão de Santa Cruz, por meio do testemunho e atuação dos Irmãos de Santa Cruz em nossas Paróquias, escolas, obras sociais, e tantos outros ministérios e apostolados em que estamos presentes. Por uma atuação inspirada em nossa vocação religiosa, somos uma presença atuante na Igreja e na sociedade. Nas ações desenvolvidas nos diversos serviços e apostolados, consagramos e doamos nossas vidas por amor e dedicação ao próximo. Nosso modo de viver e cultivar a fraternidade nos faz semeadores daquilo que o próprio Cristo priorizou como uns dos modos de construção do Reino de Deus na humanidade. Que os herdeiros desse legado e do carisma fundacional de Santa Cruz, continuem caminhando, cruzando todo tipo de fronteiras e que os dons da humildade e da simplicidade cresçam e se desenvolvam continuamente em nossas próprias vidas, a fim de acompanhar a todos aqueles, colocados sob nossos cuidados, com amor e proximidade!

A Congregação de Santa Cruz agradece e rejubila com todos os seus colaboradores por essa tão grande dádiva: celebrar duzentos anos do início da construção de um grande legado transformador de muitas vidas e agradece a todos por permanecerem fieis ao cumprimento e ao zelo na missão educacional de Santa Cruz.

Fraternalmente,


Ir. Edson da Silva Pereira, CSC

Coordenador Geral de Pastoral e Missão

Comunicação

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